Choque de hábitos causa conflito entre chineses e brasileiros em prédios de SP

Ilustração Alpino/Editoria de Arte/Folhapress

As diferenças de hábitos entre moradores chineses e brasileiros em prédios de classe média e média alta de São Paulo têm gerado embates e saias justas em diversos condomínios da cidade.

As queixas em relação aos orientais vão desde o uso inadequado de piscinas até o aproveitamento exótico das sacadas dos apartamentos.

Por trás dos conflitos, a dificuldade de comunicação e as diferenças culturais ajudam a entender as complicações de relacionamento.

Em um condomínio da Barra Funda (zona oeste), dois episódios geraram uma onda de protestos e reclamações de brasileiros contra chineses.

Um morador asiático foi flagrado se ensaboando e lavando a cabeça e peças de roupa dentro da piscina.

O outro problema considerado grave foi que, em uma festa realizada por um morador chinês, os restos da balada, como ossos de galinha, pratos descartáveis, toalhas, papel e sobras de comida ficaram jogados no gramado.

Para o síndico do local, Leonardo Sobelman, a solução para diminuir os transtornos é a comunicação.

“Estamos estudando trazer um chinês que fale bem o português para nossas reuniões para que ele faça a tradução das discussões para os moradores asiáticos. Temos que integrá-los às nossas regras e aos sistemas de informação do condomínio”, diz.

BICHO NA VARANDA

Em um condomínio do Ipiranga (zona sul), com sete torres, 40% dos moradores são chineses. Os conflitos já chegaram a ser graves, como quando um morador dissecou um animal na varanda de seu apartamento. Hoje os problemas estão atenuados.

“Às vezes, o diálogo é muito difícil e aplica-se multa, mas eles pagam sem questionar. Não há inadimplência entre os chineses. A solução foi encontrar um representante entre eles que transmitisse e explicasse as normas e reclamações aos outros”, conta Luiz Fabiano, administrador do condomínio.

Para Márcio Rachkorsky, advogado especialista em condomínios e colunista da Folha, o caminho da boa convivência está na ampliação das formas de comunicação.

“É importante que a comunicação seja bem lúdica, com ilustrações e desenhos. Como as crianças já aprendem o português antes dos pais, uma boa estratégia é focar na molecada. Em alguns casos, não tem como não aplicar medidas de rigor, mas há que se ter muito cuidado, para não caracterizar discriminação”, explica Rachkorsky.

ESFORÇO DE AJUSTE

Para o chinês Cheng Ka Wai, 34, coordenador da Associação de Jovens Chineses, os problemas de relacionamento têm aumentado, mas ele afirma que há uma “consciência” entre a comunidade de que deve haver mudança de comportamento e está em curso “um esforço de ajuste aos modos brasileiros”.

A associação faz reuniões periódicas com imigrantes para esclarecer questões sobre costumes locais. “Sempre mostramos que é necessário respeitar a cultura daqui. Explicamos as diferenças do Brasil e da China e tentamos mostrar o quanto é necessário respeitar os padrões do Brasil para um boa convivência”, diz Ka Wai.

A associação estima que cerca de 200 mil chineses vivam hoje em diferentes municípios da Grande São Paulo. A maioria mora nas proximidades do centro da capital.

“Há uma consciência, até mesmo na China, de que é preciso melhorar a convivência entre as pessoas”, completa.

Fonte: Folha